Depoimento de um aluno NuTE

24 02 2011

Aos quatorze anos de idade fiz matrícula, incentivado pelos meus vizinhos, numa escolinha de artes da prefeitura de Blumenau, não me recordo o nome, mas lembro que ficava em frente ao Biergarten, no centro da cidade. Neste espaço, eu e os outros alunos, fazíamos atividades artísticas, artes visuais, música e teatro; lembro que o teatro me chamou mais a atenção, gostava dos jogos, dos ensaios, das apresentações. Durante um ano participei das atividades da escolinha e, em seguida, tomei conhecimento do curso livre de teatro NUTE, mas não tinha coragem de entrar sozinho. Em 1994, convidei uma amiga para fazer uma aula experimental. Ela permaneceu por pouco tempo, mas eu continuei. As aulas do NUTE eram dinâmicas, o curso tinha por objetivo proporcionar a experimentação das artes cênicas com a finalidade de capacitar os alunos para situações reais da produção teatral. Hoje percebo que naquela época, nós alunos já éramos investigadores do teatro, pois os professores conduziam o processo dramático de forma a estimular uma formação do aluno/ artista pesquisador. O professor que mais marcou presença na minha formação nuteana foi o Carlos Crescêncio, na qual chamávamos de Carlinhos, conduzia os processos dramáticos sempre no intuito de instigar no aluno o desenvolvimento de um caminho próprio. Nos eventos dos Jote-InterNUTE – Jogos Internos de Teatro – uma variação do Jote-Titac, envolvendo apenas estudantes de teatro do NUTE, participávamos de toda a produção teatral, desde a interpretação cênica, concepção e montagem de cenário, confecção de figurinos, pesquisa de maquiagens; até a sonoplastia e plano de iluminação. A sede do NUTE ficava nas dependências do Teatro Carlos Gomes, nós usufruíamos de toda a estrutura do teatro, e isso certamente, foi extremamente enriquecedor, pois todas as nossas aulas e experimentações aconteciam no espaço teatral. Experiência fantástica, pois aprendíamos fazendo e refazendo, dentro das salas e dos auditórios do Carlos Gomes. Assim, o espaço e a engrenagem teatral eram ‘nossa’, podíamos explorar, pesquisar, fantasiar, sentir, enfim, vivenciávamos com plenitude a caixa preta e os espaços alternativos. Hoje, escolas de formação de atores, coletivos de teatro e profissionais das artes cênicas não conseguem tal facilidade, geralmente, somente dias antes da estréia, ensaiam no teatro. O curso NUTE oferecia constante aperfeiçoamento, participei de alguns workshops que a escola promovia ao trazer pessoas da cena teatral brasileira. Importante também foi à vivência como ouvinte nos Festivais Universitário de Teatro de Blumenau, pois o contato com as encenações e seus debates sobre as diferentes estéticas teatrais contribuía para ampliar nossos conhecimentos. Participei das atividades do NUTE durante dois anos, nesse período, lembro-me que marquei presença em oito espetáculos – hoje entendo porque minha mãe dizia que eu vivia no teatro, tempos de intensa produção teatral. Dos espetáculos, alguns estive como ator, outros como diretor. Encenador aos dezesseis anos de idade? Sim, o NUTE proporcionava essa experiência. Muitas são as lembranças: estudo e adaptação do texto dramático, pesquisa de cores da iluminação para ver os efeitos com a maquiagem, saídas à rua para conseguir junto ao comércio tecidos para os figurinos e adereços de cena, ensaios exaustivos, enfim, vivíamos plenamente o fazer teatral. Duas montagens que viajei por cidades do vale do Itajaí: “O menstruado ou a dúvida de Heliogábalo”, direção do Carlinhos, espetáculo adulto com participação em festivais; e “O poderoso Sapão”, direção do Alexandre, espetáculo para crianças. Com esta última peça, estivemos em várias cidades com a participação de público/alunos de muitas escolas. Em 1996 fui pra o Rio de Janeiro, com dois amigos que também fizeram o curso do NUTE, todos com o desejo de atuar. Permaneci na cidade por quase um ano, aos dezessete anos vivenciei muito teatro por lá. Em 1998 fui para Curitiba para prestar vestibular para as artes cênicas. Conclui o curso, fiz especialização e mestrado em teatro. Hoje sou professor da Faculdade de Artes do Paraná, leciono para o curso de Licenciatura em Teatro. Estudo os jogos teatrais e dramáticos, o processo do drama como método de ensino, o professor personagem, a recepção e suas implicações; enfim, pesquiso a pedagogia do teatro na escola e em possibilidades junto à comunidade. Agradeço aos deuses do teatro por ter iniciado minha prática teatral no NUTE, o tempo que lá permaneci foi fundamental para o impulso necessário da minha trajetória como artista, professor e pesquisador do teatro.

Robson Rosseto

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